Olá! Está tudo bem com você?
Não, não está tudo bem comigo não!
E por quê?
Por quê?! Oras, como pode estar tudo bem comigo se estamos confinados
por causa do Coronavírus, se estamos proibidos de trabalhar presencialmente; se
estamos proibidos de sair de casa; se estamos proibidos de visitar os amigos e
parentes; se estamos proibidos de sair na rua sem máscara; se estamos proibidos
de visitar os amigos que ficaram doentes, se estamos proibidos de velar os
amigos que morreram e nem podemos enterrá-los; se estamos proibidos de ir à
feira, ao cinema, ao teatro, aos shows; se estamos proibidos de abraçar e
beijar as pessoas que amamos; não podemos casar, irmos aos casamentos, às
festas, alegrar-nos... Tudo passou a ser proibido e temos que ficar
confinados, distanciados para não nos contaminarmos, para não ficarmos doentes,
para não contaminarmos os outros, para não morrermos. O medo passou a fazer
parte de nossa vida ainda com mais intensidade. Agora o medo maior não é só do
outro, mas deste que todos sabem que existe e existe verdadeiramente e
verdadeiramente nos assusta: o Corona.
Portanto, você me pergunta se está tudo bem?
Vivemos sempre dizendo que está tudo bem, normalmente por educação, mas
na verdade também é porque vivemos nos enganando e enganando os outros
para sobreviver, para demonstrar uma aparência social que não é a verdadeira
entre quatro paredes. É de praxe responder que está tudo bem, mesmo
não estando, porque os seus problemas não são os problemas dos outros e
provavelmente o outro, mesmo com boa intenção, não resolverá os seus
problemas.
Está tudo bem?
Não está tudo bem não. Está tudo mal.
Se eu ligo a televisão, quase o dia todo só aparecem noticiários para
apresentar quantas pessoas se infectaram, quantas conseguiram curar-se e
quantas morreram, em sua cidade, no seu estado, no seu país e no mundo. Como é
possível estar bem com a infelicidade de tanta gente?
Se você entra no WhatsApp inúmeros vídeos e frases de mau gosto brincam
com a infelicidade humana como se fosse comum morrer dando risada da própria
morte. A primeira vontade é excluir-se dos seus contatos, dos quais
participamos, em razão da falta de bom senso, o que nos assusta por aquilo que
achávamos que deveriam ser e demonstram uma falta de respeito e insensibilidade
que nunca imaginaríamos existir no contexto que ocupam. Mas algumas, que me
desculpem, são pessoas queridas mas deveriam ser mais sensatas e conscientes da
realidade e pensar duas vezes antes de encaminhar pensamentos doentios em
relação à realidade aparente. Ler um texto ou ver um vídeo que prega o ódio
seja lá a quem for e encaminhá-lo impensadamente como se fosse partidário
daquela ideia, divertindo-se com isso, é no mínimo um ato
irresponsável. Não conseguir perceber que estão sendo direcionadas por
chefes vaidosos que nunca serão líderes verdadeiros é uma alienação
preocupante. Não perceber que o sofrimento do outro poderá um dia ser o seu
próprio sofrimento é preocupante. A vaidade e a imponência daqueles que
deveriam prestar assistência àqueles que acreditaram neles e àqueles que nem
acreditaram, mas que têm os mesmos direitos, fazem com que as atitudes sejam
ditatoriais e inconsequentes, senão de demência. Repeitar a dor do outro é, no
mínimo, uma atitude sensata. O Humor é bom e necessário e através do Humor
podemos demonstrar nossa insatisfação e procurar corrigir certos hábitos,
certas atitudes. Mas entenda-se que o Humor é para corrigir e não destruir.
Leve-se em consideração a citação latina: "Ridendo castigat mores" e
uma de suas possíveis traduções: "Rindo corrige-se os
costumes".
Estamos cerceados, estamos proibidos de exercer a liberdade de ir e vir.
Isso é uma das piores coisas de nossa vida: a prisão. Se antes, após trabalhar
durante meses, esperávamos a oportunidade de lazer indo à praia, viajando, indo
visitar parentes, amigos, na cidade, no estado, no país, no mundo, em qualquer
parte que tivéssemos condições financeiras ou de locomoção, nós íamos. Agora,
nada disso é permitido. Se você estiver fazendo isso neste instante, está indo contra
as normas coerentes de evitar a propagação do vírus.
Estou sentindo na pele isso. Tenho uma filha que está morando em um país
distante. Pretendíamos estar juntos em julho. Mudamos para julho do ano
seguinte. Mas mesmo assim, ela acredita que não será possível, pois esse país
está impedindo viagens ao Brasil e não há previsão de quando liberarão a
entrada de brasileiros. E há aquela condição: se você sair daqui não significa
que poderá entrar de volta. E por que isso está acontecendo? Porque o Brasil está
passando para o mundo não só a imagem mas a constatação do desleixo e
incompetência por parte de certos órgãos governamentais aos cuidados
necessários de enfrentamento ao Corona e vários países estão armando-se
para impedir a entrada de brasileiros em suas terras. Portanto, como
posso estar bem se não sei daqui a quantos meses ou anos poderei dar um abraço
e um beijo em minha filha? Quantas vidas serão ceifadas nos próximos dias e
meses? E os abraços e beijos estão adiados. Isso pode ser piadinha para
os outros rirem? Até pode para pessoas inconsequentes, mas não para mim.
As pessoas saem em busca de seus sonhos e quando estão para concretizar
boa parte deles, são impedidas, são imobilizadas e presas em cadeias das quais
não sabem quando poderão sair. A alegria dos sorrisos se apaga e lágrimas
surgem nos olhos e nos cantos escondidos gritos de dor e prantos doloridos
irrompem.
E você me pergunta se está tudo bem?
Não, não está tudo bem.
Estou sim equilibrado, estou bem comigo, com meu contexto familiar,
estou feliz naquilo que fiz e estou fazendo, mas algo conturba meu bem-estar e
esta felicidade pois é difícil perceber a infelicidade do outro e estar bem,
não estou me sentindo bem porque sinto e vejo que muitos outros não estão bem.
Como posso estar bem? Estou entendendo que este é um momento que devo e
devemos passar, assim como outros momentos doloridos que a humanidade viveu.
Estou sentindo que devo me equilibrar, que tudo tem uma razão de ser. Estou
percebendo que temos que ter coerência para sobreviver, mesmo correndo o risco
de o outro que está perto não ter a mesma coerência. Estou sentindo que estamos
pagando um preço por atitudes que nós mesmos, humanos, realizamos, em relação ao
outro, à natureza, à Terra, ao universo. Talvez seja um alerta para cuidarmos e
nos cuidarmos. Talvez seja uma conversa com o Ser Universal Superior Indizível
e Crível.
Estou entendendo que devo e devemos aceitar a vida como ela é envolvendo
a alegria e a tristeza, aceitar aquilo que não podemos alterar, aceitar a nossa
fragilidade e trabalhar para que tenhamos força e modificar o que é possível de
ser modificado e melhorado, pois essa é uma das razões da nossa existência:
fazermos algo de bom para nós, para o outro, para a Humanidade. Vale a
pena continuar vendo o sol nascer, vendo a chuva cair, vendo a planta
frutificar, ver o sorriso da criança, do jovem, do velho. A Felicidade existe
em nós e para nós.
E de tudo isso fica a certeza de que podemos continuar acreditando,
podemos buscar a calma, a Paz, porque sempre há em nós a Esperança, a vontade
de continuar, a vontade de viver, a crença de que existem pessoas buscando a
solução, pesquisando, cuidando, dedicando sua vida à vida dos outros, pessoas que
se arriscam cuidando das outras, às quais devemos agradecer. Sempre há pessoas
do Bem que querem e buscam o Bem da Humanidade, lutando, dedicando-se. É nelas
que devemos pensar, é nelas que devemos confiar, é nelas que devemos depositar
a nossa Fé, a nossa Crença que de há sempre uma luz que ilumina o nosso
caminho. E a Ciência, mais do que o poder dos governantes é que encontrará o
Caminho para sairmos das dificuldades atuais tanto de Saúde como da Economia,
porque não há Economia se não houver Saúde. Foquemos nossa Energia,
então, nos cientistas que estão buscando a solução para a Vida.
Roberto
Samuel Sanches
madrugada
de 07/06/2020
