sexta-feira, 25 de junho de 2021

 

Um filme para relaxar, mas não muito.

Acabei de assistir ao filme Sete anos no Tibet, tendo como protagonista Brad Pitt. Ouvia falar bem desse filme e da atuação do Brad, mas nunca tinha parado para assisti-lo. Hoje, depois de passar rapidamente na casa de várias pessoas amigas, entregando-lhes alguns pedidos de livros,  cansado pelo fato de ter dormido tarde e acordado cedo, cansado pelo fato de chegar na casa de várias pessoas queridas e não poder dar-lhes um aperto de mão, um abraço, um beijo. Não poder entrar para os tão desejados e costumeiros cafés, chás, sucos com bolos doces ou salgados regados de palavras soltas, alegres, carinhosas, saudosas.

Cansado de sentir na pele a dor causada pela epidemia, a dor do afastamento causado pela Covid, decidi relaxar-me, fugir daquela realidade dolorida aparente e assistir a um filme. Inúmeras sugestões apareciam na tela insistindo para eu ver aquilo que eu não queria, como acontece cada vez mais em nossa vida, quando o computador, o celular e a rede social determinam para nós o que devemos ou não fazer. Pois bem, contrariando todas as ordens, contrariando todas as imposições (porém sei que até certo ponto), decidi assistir a esse filme, que mesmo não sabendo exatamente do que se tratava, queria assistir a um drama e relaxar.

Já de início comecei a questionar: o que faz um homem procurando escalar montanhas perigosas, em meio à neve, frio, tempestades, deslizamentos, riscos de cair e não voltar, enfim já muitos pensamentos críticos vinham à mente. Ao mesmo tempo vinha a sensação do silêncio, da paz, da busca de alcançar uma meta e o sonho do sorriso feliz de alcançá-la, principalmente sendo uma meta difícil.

Mesmo assim, não seria a minha praia, eu não colocaria a minha vida em risco de tal tamanho. Em verdade, não sou e nunca fui preparado para esse tipo de esporte, nunca admiti, para mim, colocar meu corpo em altos riscos, quando posso optar, mesmo sabendo que há o prazer . Entendo até aqueles que se colocam para tal, mas não gosto de admitir colocar a própria vida em risco sendo que posso subir outras montanhas, menos altas, sentir o prazer da brisa, do vento, da tempestade no local alcançado, mas não tenho a necessidade de estar nos lugares mais altos, mais difíceis, onde poucos poderão estar somente pelo prazer de lá estar, mais alto do que todos os outros. E por quê? Somente porque este será um dos poucos escolhidos. Será? Um, dos poucos capazes, competentes, superiores?

Aos poucos, tudo isso continua sendo questionado durante o filme, para demonstrar o quanto os homens lutam para se saírem vencedores. Alguns para o bem, nem que seja para provar para eles mesmos. Mas muitos outros, para o “bem” deles, nem que seja para o mal dos outros, nem que seja para que muitos morram. Friamente, matam e destroem tudo e todos que encontram em seus caminhos, para se fazer donos das terras e de tudo aquilo que os homens consideram de valor para posse.   Esses poucos querem o poder, a posse, nem que seja preciso trair os próprios amigos, pelo simples prazer de ter momentos da falsa percepção de estar no poder superior sobre os outros de mandar nos outros, ter superioridade de domínio sobre os outros, de fazer com que cumpram suas ordens, de se achar um determinado “deus” para o qual muitos se ajoelham, reverenciam e aplaudem.

Esse filme, na sua ficção, baseada na realidade, nos traz um homem que busca um dos seus sonhos e deixa outro dos seus sonhos para trás. Para sua esposa, ele está deixando seu maior sonho para trás, mas para ele, em sua visão, está buscando realizar um grande sonho para voltar atrás de outro sonho. Talvez naquele momento ele, focado no seu objetivo, cegamente nem esteja percebendo o que está acontecendo. Ela sim, já percebe que tudo mudará a partir daquela escolha. E aquele velho adágio de que nunca se ganha sem se perder e nunca se perde sem se ganhar; ou ainda, precisamos nos alienar de algo, para nos conscientizarmos de outro e quando nos conscientizamos de algo, nos alienamos de outros.

Mas o difícil e dolorido é a constatação do quanto, na história da humanidade, os povos se mataram para invadir, para dominar, para possuir novas terras. O quanto soma em mortos um só desequilibrado no poder, levando, com sua liderança,  tantos outros a dominar, torturar, executar.

Às vezes, considerando a História da Humanidade, eu acho que o ser humano melhorou, fazendo-se mais dócil, mais humilde, mais solidário, mais humanitário. Mas quando começo a me conscientizar do que está acontecendo em nosso país e em muitos outros países, viver é sempre o desejo de evitar a morte. Temos medo de morrer a todo instante que nos consideramos vivos. Temos medo de morrer sempre que percebemos que estamos vivos e precisamos preservar a nossa vida frente a tantos riscos e a tantos perigos que nos cercam.

O filme me fez chorar sim, várias vezes, talvez pela sensibilidade que a maioria de nós está tendo à flor da pele  (não todos, porque como demonstrei acima, muitos continuam inconscientes, se sentem poderosos e acham que podem rir da morte; só acham, porque não podem rir da própria morte) em razão de tantas perdas de pessoas queridas em tão pouco tempo e dos riscos que temos de perdermos mais pessoas queridas e mesmo perder nossa vida, mesmo gostando de viver e querendo ficar mais tempo por aqui, fazendo estas coisas.

O filme me fez chorar sim, principalmente nos momentos em que um pai solitário encontra um filho solitário e aprendem a amar-se, mesmo não sendo pai e filho um do outro. Mas, assim como na vida, há a Esperança e o final do filme parece o começo de tudo novamente, como se as gerações se repetissem e as histórias se repetissem.

Como é boa a presença da Arte, nestes momentos de epidemia, para que nosso coração sinta o alento de que nós somos seres que amamos. Amamos e somos amados, mesmo que não o saibamos, mas na maioria das vezes, sabemos. E é o que vale.

E vamos continuar respirando um ar bom e saudável, mesmo que para isso precisemos insistir para que entendam o que é um ar bom e saudável. Saúde, Alegria e Paz.

                                                                                                       Roberto Samuel

                                                                                                       começo da noite de 25.06.21