Um filme para relaxar, mas não
muito.
Acabei de assistir ao filme Sete
anos no Tibet, tendo como protagonista Brad Pitt. Ouvia falar bem desse
filme e da atuação do Brad, mas nunca tinha parado para assisti-lo. Hoje,
depois de passar rapidamente na casa de várias pessoas amigas, entregando-lhes
alguns pedidos de livros, cansado pelo
fato de ter dormido tarde e acordado cedo, cansado pelo fato de chegar na casa
de várias pessoas queridas e não poder dar-lhes um aperto de mão, um abraço, um
beijo. Não poder entrar para os tão desejados e costumeiros cafés, chás, sucos
com bolos doces ou salgados regados de palavras soltas, alegres, carinhosas,
saudosas.
Cansado de sentir na pele a dor
causada pela epidemia, a dor do afastamento causado pela Covid, decidi relaxar-me,
fugir daquela realidade dolorida aparente e assistir a um filme. Inúmeras
sugestões apareciam na tela insistindo para eu ver aquilo que eu não queria,
como acontece cada vez mais em nossa vida, quando o computador, o celular e a
rede social determinam para nós o que devemos ou não fazer. Pois bem,
contrariando todas as ordens, contrariando todas as imposições (porém sei que
até certo ponto), decidi assistir a esse filme, que mesmo não sabendo
exatamente do que se tratava, queria assistir a um drama e relaxar.
Já de início comecei a questionar:
o que faz um homem procurando escalar montanhas perigosas, em meio à neve,
frio, tempestades, deslizamentos, riscos de cair e não voltar, enfim já muitos
pensamentos críticos vinham à mente. Ao mesmo tempo vinha a sensação do
silêncio, da paz, da busca de alcançar uma meta e o sonho do sorriso feliz de alcançá-la,
principalmente sendo uma meta difícil.
Mesmo assim, não seria a minha
praia, eu não colocaria a minha vida em risco de tal tamanho. Em verdade, não
sou e nunca fui preparado para esse tipo de esporte, nunca admiti, para mim,
colocar meu corpo em altos riscos, quando posso optar, mesmo sabendo que há o
prazer . Entendo até aqueles que se colocam para tal, mas não gosto de admitir
colocar a própria vida em risco sendo que posso subir outras montanhas, menos
altas, sentir o prazer da brisa, do vento, da tempestade no local alcançado,
mas não tenho a necessidade de estar nos lugares mais altos, mais difíceis, onde
poucos poderão estar somente pelo prazer de lá estar, mais alto do que todos os
outros. E por quê? Somente porque este será um dos poucos escolhidos. Será? Um,
dos poucos capazes, competentes, superiores?
Aos poucos, tudo isso continua
sendo questionado durante o filme, para demonstrar o quanto os homens lutam
para se saírem vencedores. Alguns para o bem, nem que seja para provar para
eles mesmos. Mas muitos outros, para o “bem” deles, nem que seja para o mal dos
outros, nem que seja para que muitos morram. Friamente, matam e destroem tudo e
todos que encontram em seus caminhos, para se fazer donos das terras e de tudo
aquilo que os homens consideram de valor para posse. Esses
poucos querem o poder, a posse, nem que seja preciso trair os próprios amigos,
pelo simples prazer de ter momentos da falsa percepção de estar no poder
superior sobre os outros de mandar nos outros, ter superioridade de domínio
sobre os outros, de fazer com que cumpram suas ordens, de se achar um
determinado “deus” para o qual muitos se ajoelham, reverenciam e aplaudem.
Esse filme, na sua ficção,
baseada na realidade, nos traz um homem que busca um dos seus sonhos e deixa
outro dos seus sonhos para trás. Para sua esposa, ele está deixando seu maior
sonho para trás, mas para ele, em sua visão, está buscando realizar um grande
sonho para voltar atrás de outro sonho. Talvez naquele momento ele, focado no
seu objetivo, cegamente nem esteja percebendo o que está acontecendo. Ela sim,
já percebe que tudo mudará a partir daquela escolha. E aquele velho adágio de que
nunca se ganha sem se perder e nunca se perde sem se ganhar; ou ainda,
precisamos nos alienar de algo, para nos conscientizarmos de outro e quando nos
conscientizamos de algo, nos alienamos de outros.
Mas o difícil e dolorido é a
constatação do quanto, na história da humanidade, os povos se mataram para invadir,
para dominar, para possuir novas terras. O quanto soma em mortos um só desequilibrado
no poder, levando, com sua liderança, tantos outros a dominar, torturar, executar.
Às vezes, considerando a História
da Humanidade, eu acho que o ser humano melhorou, fazendo-se mais dócil, mais
humilde, mais solidário, mais humanitário. Mas quando começo a me conscientizar
do que está acontecendo em nosso país e em muitos outros países, viver é sempre
o desejo de evitar a morte. Temos medo de morrer a todo instante que nos
consideramos vivos. Temos medo de morrer sempre que percebemos que estamos
vivos e precisamos preservar a nossa vida frente a tantos riscos e a tantos
perigos que nos cercam.
O filme me fez chorar sim, várias
vezes, talvez pela sensibilidade que a maioria de nós está tendo à flor da pele
(não todos, porque como demonstrei
acima, muitos continuam inconscientes, se sentem poderosos e acham que podem
rir da morte; só acham, porque não podem rir da própria morte) em razão de
tantas perdas de pessoas queridas em tão pouco tempo e dos riscos que temos de
perdermos mais pessoas queridas e mesmo perder nossa vida, mesmo gostando de viver
e querendo ficar mais tempo por aqui, fazendo estas coisas.
O filme me fez chorar sim,
principalmente nos momentos em que um pai solitário encontra um filho solitário
e aprendem a amar-se, mesmo não sendo pai e filho um do outro. Mas, assim como
na vida, há a Esperança e o final do filme parece o começo de tudo novamente,
como se as gerações se repetissem e as histórias se repetissem.
Como é boa a presença da Arte,
nestes momentos de epidemia, para que nosso coração sinta o alento de que nós
somos seres que amamos. Amamos e somos amados, mesmo que não o saibamos, mas na
maioria das vezes, sabemos. E é o que vale.
E vamos continuar respirando um
ar bom e saudável, mesmo que para isso precisemos insistir para que entendam o
que é um ar bom e saudável. Saúde, Alegria e Paz.
Roberto Samuel
começo da noite de 25.06.21